O SER





Quando iniciei meu curso de psicologia, levei um susto diante das possibilidades do SER.  Eu tinha neuroses, traumas, angustias de separação? Lembro-me como hoje de uma professora, doutora, que ensinava Sartre. Ela falava sobre angústia da separação e sobre escolhas. Enquanto ela falava, muitos (ou quase muitas)  de nós chorávamos copiosamente, pois cada palavra daquela palestra aula, soava como poesias de nossas vidas tocando emoções como se fosse pluma no nariz.

Descobri naquela época que tinha escolhas a fazer e que vivi até então sem saber que já as fazia. Em vários momentos desejei não saber de nada, pois uma vez que tomei consciência tinha que me posicionar. E como dói! Parece lixa no Ego. 

Muitos dizem  que psicólogos são loucos, excêntricos, gays... Fato é que para nós, emoções são apenas mais um elemento do exercício de nossa profissão. É comum assustarmos as pessoas com nossas opiniões polêmicas e o jeito fácil de falar daquilo que para tantos seria tabú.

Mas voltando ao inicio da conversa, o mergulho interior que fazemos quando estudantes é um risco e dará o tom do profissional que seremos. É desafiador, olhar no espelho e muitas vezes descobrir que este é o avesso do avesso do avesso como disse um belo e brasileiríssimo poeta. Esta é a desconstrução do eu e a conclusão é que o que ficar de pé é quem vai andar. Sim, se ficar de pé, anda, diz a neurologia. Ou não, como disse o mesmo brasileiríssimo.

Descobri, inicialmente nesta profissão, e depois na filosofia espiritista ou nos autores de auto-ajuda (que não li, diga-se de passagem) que somos uma sucessão de momentos. Este é um belo discurso para justificar o prazer. O prazer do aqui agora. Sim pois o futuro é ansiedade, o passado é regressão.Só uma chance: o presente para fazer acontecer tudo ao mesmo tempo agora. Este foi o nome da minha primeira chapa no movimento estudantil. 

Por falar nisto, no movimento vivi os melhores anos do início de minha vida de rebeldia e questionamentos. Lá era bacana ser do avesso. Os meninos podiam usar cabelos longos, brincos e boinas e as meninas podiam dormir fora de casa para não dizer aqui que podiam bem mais que isto sem serem julgadas como nossos pais. Ou melhor, nossas mães.

Falávamos o que queríamos, mas obedecíamos o centralismo democrático e só podíamos namorar os meninos que fossem do grupo. Este acordo era tácito, mas em troca eles nos protegiam e nada de mal podia nos acontecer. Principalmente se o mal, fosse o mocinho da outra chapa do Diretório. Penso agora no relativo poder de um bando de estudantes duros e militantes de esquerda. Ainda bem que isto foi há quase duas décadas. Naquele tempo nossos colegas ainda não queimavam índios em pontos de ônibus. (Ou não, diria aquele poeta.)

Sei que vivi. Vivi lá e agora em cada signo e em cada vírgula que aqui posto vivo minha identidade forjada no movimento “caras pintadas” puxado pela UNE e no choro da aula de Sartre. Diante dos textos de Simone de Beauvoir nos curvamos, entendemos Marx, Engels, Weber, Moreno, Freud. Livros e mais livros que tinham cheiro e até gosto.

Pensando bem agora, o SER é que somos mesmo apenas o momento que depois que passa, deixa apenas a lembrança e a única coisa que espero para o futuro é que meu filho fale e ande e que eu possa morrer em paz com sensação do dever cumprido conforme me comprometi outro dia qualquer.

Glaucia
Ago/2012

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